Sinfonia de Inquietude




Selecção musical por DJ Tormento, aceito discos pedidos...lol

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

(amor liberdade?)




Uma das indigências dos nossos dias é a que se refere ao amor. Não porque ele não exista, mas a sua existência não acha lugar, acolhimento na própria mente e mesmo na própria alma de quem é visitado por ele. No ilimitado espaço que, na aparência, a mente de hoje abre a toda a realidade, o amor tropeça com barreiras infinitas. E tem de justificar-se e dar razões sem fim, e tem de resignar-se finalmente a ser confundido com a multidão dos sentimentos, ou dos instintos, se não quer esse lugar escuro da “libido”, ou ser tratado como uma doença secreta, de que deveríamos libertar-nos. A liberdade, todas as liberdades não parecem ter-lhe servido de nada; a liberdade de consciência menos que nenhuma, pois, à medida que o homem foi acreditando que o seu ser consistia na consciência e mais nada, o amor foi-se encontrando sem espaço vital onde respirar, como uma pássaro asfixiado no vazio de uma liberdade negativa.
Pois a liberdade foi adquirindo um sinal negativo, foi-se convertendo – ela também – em negatividade, como se, ao ter feito de uma liberdade o a priori da vida, o amor, o primeiro, a tivesse abandonado. E assim, ficará o homem com uma liberdade vazia, o oco do seu ser possível. Como se a liberdade não fosse senão essa possibilidade, o ser possível que não pode realizar-se, necessitando do amor que engendra. “No princípio era o verbo”, queria dizer também que era o amor, a luz da vida, o futuro a realizar-se. Sob essa luz, a vida humana descobria o espaço infinito de uma liberdade real, a liberdade que o amor concede aos seus escravos.
Viver o lado negativo da liberdade parece ser o destino que há-de purificar o homem da nossa época. E nada mais difícil de decifrar que o que sucede na negação, na sombra e na vacuidade. Vida na negação, é a que se vive na ausência do amor. Quando o amor – inspiração, sopro divino no homem – se retira, não parece perder-se nada de momento, e até parecem emergir com mais força e claridade coisas como os direitos do homem emancipado. Todas as energias que integravam o amor ficam soltas e a vaguear por sua conta. Como sempre que se produz uma desintegração, há uma repentina liberdade, em verdade pseudo-liberdade, que depressa se esgota.

María Zambrano

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