Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade
segunda-feira, 26 de maio de 2008
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1 comentário:
"não se perdeu nenhuma coisa em mim.
continuam as noites e os poentes
que escorreram na casa e no jardim,
continuam as vozes diferentes
que intactas no meu ser estão suspensas.
trago o terror e trago a claridade,
e através de todas as presenças
caminho para a única unidade."
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
Olha que o casal Bonnie & Clyde não tiveram um final feliz...hehehe
Bjs obrigado pelo teu contributo amiguinha linda.
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